Acerca de mim

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Poeta por inspiração e imposição da alma... Uma pessoa simples, que vive a vida como se fosse a letra de uma canção, o enredo de um filme, a preparação para uma vida superior, à espera da eternidade e do encontro com o Criador.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O canto adormecido



Já não há a cantiga, o tempo mentiu passados 
e o canto adormeceu. Nem colo há 
apenas o frio da cadeira vazia e o lume apagado. 

Pendem as chouriças ao fumeiro, os presuntos
um grande ramo de loureiro. A trempe, o pote
agora não são mais do que objetos para o “ferro-velho” 
a carrinha passa uma vez em cada mês.

A morte de uma casa começa pela cozinha 
quando a cozinha morre todo o resto fica moribundo. 
Virão os gatos e comerão os ratos, alimentados das 
chouriças que ficaram esquecidas. 
Os móveis apodrecerão. As paredes cairão.

O canto ficará adormecido para sempre
numa cadeira ao borralho.

Felipa Monteverde

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa


Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
mas sem ser ele
que ele foi muito infeliz e
eu não quero a infelicidade de ninguém
(já me basta a que sinto às vezes
quando estou mais virada para os sentimentos egoístas).

Mas o que quero dizer com isto
é que eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
na genialidade que ele tinha
na perfeição que ele punha
em tudo o que fazia.

Dizem que era um bêbado
um alcoólico...
mas se assim foi
abençoadas as bebedeiras que teve
que o fizeram escrever tanto
e tão geniosamente…

Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
para escrever sobre qualquer assunto
a qualquer hora
com a genialidade do mestre
do formador de caracteres dentro dele
que nem sabia qual deles existia
qual deles era ele
(se é que ele foi algum dos imensos que quis ser)...

Felipa Monteverde

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Esperanças...


Deus sabe melhor do que eu 
Quem eu sou 
Por isso a sorte que me deu 
É aquela em que melhor estou.
Ele alinha 
As minhas acções 
De uma forma que não é minha 
Mas tem lá suas razões. 
(Fernando Pessoa)

Nunca faço planos, vou contornando ou aceitando
o que o destino me traz.
Como diz o ditado: "Guardado está o bocado
para quem o há-de comer".
E "O que tiver de ser à mão vem ter".

Será conformismo, será cobardia, será
experiência de vida, será cansaço, será o que
lhe quiserem chamar, mas é assim que levo a vida
assim a vida me ensinou.

Para um novo ano, como para os anos anteriores
apenas tenho esperanças... quanto
a concretizações, dali a um ano falaremos.

Tenho uma filosofia de vida: mais vale rir e cantar enquanto
podemos, que o tempo de chorar nunca se esquece de vir.
E chorar não traz ganho nenhum, mas rir e cantar
traz-nos boa disposição.

Com este poema de Fernando Pessoa me identifico bastante
e me consolo quando a vida me trai, quando parece que o
mundo e Deus estão contra mim.
Mas, ao fim e ao cabo, verifico que tudo tem um lado bom
e um lado mau. Procuro retirar sempre das coisas más todo
o bem que possam trazer, por mínimo que seja.

No primeiro dia de cada ano
enquanto a euforia dos festejos dessa noite se desvanece
medito a lembrança de conquistas e sucessos, de falhanços e
derrotas, de mágoas e alegrias, vividas durante o ano que passou.

E chego à conclusão de que a vida vale mesmo a pena ser vivida
pois nunca há uma fome que não dê em fartura
um choro que não acabe em riso
uma tristeza que mate de vez a alegria.

E é essa esperança cheia de (in)certezas que faz com que
o sol nasça de novo todos os dias e as andorinhas continuem
a ser prenúncio de primavera, ainda que mais tarde cheguem
a noite e o inverno...

Felipa Monteverde

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Leituras


Nada está escrito.
Tudo está escrito.

Escolhe e vive
escreve ou reescreve
a opção é tua
seres sol ou lua
calor ou fria neve.

Escreve ou reescreve a tua história
mas não deites a culpa ao destino
se perdeste a inspiração.
Porque nada está escrito
ou tudo está escrito
depende se sabes ler ou não.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Mais nada além disto


Eu
não sei quem sou
só sei
que nasci e existo
e não sei
mais nada além disto
do trabalho que faço
e da roupa que visto…

Felipa Monteverde


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Acróstico


VENENO TEU

Vens tão de mansinho
E olhas p’ra mim
Nada tu me dizes
E eu quedo-me assim...
Nada…e me matas
Olhando pra mim.

Tens olhos que matam...
Eu sei que é veneno
Um olhar assim.

 Felipa Monteverde

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O enjeitado


Era um dia, era uma hora
Mas era uma hora má
Num dia de descoberta
De uma coisa que não há.

Gemiam medos na noite
Gelava o sangue aos demais
E cenas de descalabros
Se davam em todo o lado
Como se fossem sinais.

Era a hora, aquela hora
Em que nascia a tristeza
Humildemente pedindo
O que ninguém lhe daria
Em toda a sua pobreza.

E ela ia nascer
Aquela hora fatal
Em que os mares se fechavam
Sobre esse limbo imortal.
Era o momento, era o dia
Choravam trevas, mendigos
E tantos sonhos perdidos
Que ninguém encontraria.

Era uma vez um momento
Que ninguém conheceria
De trevas, marés, tormento
Mais distante do que o tempo
Que nunca se contaria.

Era uma manhã cinzenta
Rasgava um ventre, nascia
Um fado que não se inventa
Nem se descobre ou alenta
Que ninguém o quereria.

Era a hora, aquela hora
Que o destino ocultaria
Mas não deitaria fora
Como se fora penhora
Que mais tarde cobraria.

Ele nascia, o mendigo
O enjeitado, infeliz
Que ninguém quis ter consigo
A quem ninguém deu abrigo
Que nem sua mãe o quis.

Em trevas, negros espaços
Viveu sem ter uma vida
E ninguém lhe deu guarida
Nem se abriram abraços
Nunca se ouviram os passos
De uma esperança querida.

Era noite, era manhã
Era inferno, era quebranto
Era maré de espanto
Feitiço nem lá nem cá
Apenas se movem sombras
Nessa noite de alaridos
Em que o sopro do vento
Disfarçava tais gemidos
Abafados pelo tempo
Escondidos pela aurora
Que se envolvia de luz
E de trevas nessa hora.

Nasceu, o mundo o disse
O mundo o permitiu
Que ninguém mais sabe disso
Ninguém mais o percebeu.

Ó vida que entras nas veias
De um mendigo, de um ladrão
Que rouba sonhos no tempo
Para os dar à escuridão
Onde habitam os seus olhos
Onde se esconde a tristeza
Perdida nos horizontes
E sobre ombros em que pesa
O fado de renascer
Os abismos onde mora
Onde procura esquecer
A hora daquela hora.

E aquela hora passou
Mas não passaram tormentos
Nem o tempo se acabou
De ilusões e lamentos.
Cresceu menino, estrela
Que foi à força apagada
Viveu no lodo, nas ervas
No meio de tudo e nada.

Mas houve horas, outras horas
Em que nasciam princesas
Em que as estrelas brilhavam
Em que luziam riquezas
Pelos cantos e esquinas
Pelas ruas e caminhos
Por palácios e castelos
Por canteiros e jardins
Onde as rosas não têm espinhos
Onde cantam serafins
Onde a lua se esconde
Onde o sol se vai deitar
Onde se constroem pontes
Em passeios ao luar.

E era a hora, era o dia
E uma princesa nascia
Entre sedas e cetim
Entre roseiras e cravos
Entre as flores do jardim
E enfeitavam o berço
Os poemas de jograis
Que cantavam o começo
Dos dias especiais
Em que a lua se mostrava
E em jardins passeava
Entre aromas irreais.

Passaram horas, os dias
Os meses e tantos anos
De dores e de alegrias
De ilusões e desenganos
E as princesas brincavam
E as flores já murchavam
E toda a gente ignorando
Profecias que abundavam.

Era uma vez um destino
Que se fadou nas estrelas
De um enjeitado menino
Que crescera sem cautelas
Nem cuidados maternais
Nem amores ou sinais
De cantos ou madrigais.

Só um perfume de nardo
Inebriava à passagem
E o rastro do enjeitado
Perdia-se nessa aragem
De ventos e tempestades
De sombreadas esquinas
Onde o tempo mente sombras
De princesas, de meninas.

Cresceu pastor de rebanhos
Por montes e serranias
Por tempestades de ais
Por caminhos infernais
Por temores imortais
E quebrantadas folias
Em reinos de fantasias.

Cresceu pastor de rebanhos
Cresceu menino entre o gado
E a sina de enjeitado
Nunca mais o deixaria
Que até a terra gemia
Ao sentir seus passos tristes
De caminhante perdido
No meio da ventania.

Eram jardins de segredos
Onde a lua ia brincar
Onde o sonho era arvoredo
Onde habitava o luar.
Princesas, aias, meninas
Florinhas da realeza
Que se entretinham tecendo
Coroas de ouro e marfim
Enquanto ouviam histórias
De reis, rainhas, princesas
E bailes sem terem fim
Em salas que têm paredes
De caxemira e cetim.

Crescem princesas, pastores
Cresce a noite e o luar
Cresce o princípio das dores
Que ninguém sabe curar.

Passam dias e outros dias
Passa o tempo, cresce a vida
E passam verdes promessas
Passa a esperança perdida
Roubada ao sonho e à morte
Que se ocultaram na sorte
Que permanece escondida.

Houve tempos, houve auroras
Em que o luzir das estrelas
Acordava a nostalgia
De quem vive longe delas
E pelos montes dormia
Nos montes passava horas
Com rebanhos, com as flores
Que pra si mesmo colhia
Entre visões de olhos negros
De uns cabelos enfeitados
Com rosas, cravos e dores
Com feitiços mal quebrados.

Era o dia, era a noite
Era o tempo, a nostalgia
Que passavam e corriam
Pela beira de quem ia
Matar de amores a sede
Nos montes, na serrania.

Solidão, ó feiticeira
Que enfeitiçaste os meus olhos
Porque te afastas na noite
E não desvias escolhos
Do tempo que há-de vir
Do tempo que há-de chegar
Em que trevas e feitiços
Serão lançados no mar?

Era enjeitado, sabia
Que nenhum amor teria
Que ninguém amor daria
A quem não sabia amar;
Desespera, todavia
Quem amor não conhecia
Por não lho quererem dar
Nem sabe onde o procurar
Nem onde o encontraria.

Olhos negros, olhos negros
Que visão encantadora
Que o visitando em sonhos
Luziam p’la noite fora
E lhe deixavam a esp’rança
De um dia os encontrar
Como ao sol encontra a aurora
Como à lua a noite alcança.

Olhos negros, olhos negros
Que são tristes, são alegres
São humildes fantasias
De quem anseia e procura
As ignotas alegrias
Trazidas pela ventura
Ilustradas na candura
Das ilusões em que cria.

Perdia-se por um olhar
Que nunca havia avistado
Que só podia ansiar
Que só podia querer
A esse olhar encontrar
Esses olhos conhecer
A esse rosto já ver
Sem que estivesse a sonhar.

E sonhava, mal dormia
No meio da serrania
Guardando amores e gado
Que outra coisa não sabia
Nem era outro o seu fado
Ou sina de enjeitado
Nem outra coisa teria.

E sonhava, mal dormia
No meio da serrania
Entre lençóis de aspereza
Feitos de palha e de erva
E mantas de fantasia
Com que ao corpo cobria.

E lá distante, deitada
Entre lençóis de cetim
E colchas de fina seda
Dormia certa princesa
A quem um sonho embalava
E docemente chamava
E ternamente a tem presa
Entre abraços que lhe dava.

Dormia profundamente
Que nada abalaria
O sono calmo e suave
Onde nada de mal cabe
Que só o amor lá cabia
Nos sonhos que já teria
Sem que ninguém os apague
Do fogo em que já ardia.

Dormia a princesa assim
Entre lençóis de cetim
E colchas de seda pura
Não imaginando a vida
Vivida por quem não tinha
Tais colchas de seda fina
Nem lençóis, nem a ventura
De quem nasce num jardim
E é flor, é alecrim
É rosa de Alexandria.

O tempo passa e não passa
Que ninguém o vê passar
Mas vão-se os montes tingindo
De amarelo e de luar
Vai a noite perseguindo
Sonhos que hão-de acabar
Vai o sol indo e vindo
Sem ter pressa de ficar.

Pastor olhando rebanhos
Pastando nas ervas mansas
Rasteiras como este chão
Onde dormes e descansas
Por onde passam teus olhos
Por onde passam teus ais
Que caminhos já escolhes
Por que caminhos já vais?

Por onde passam teus sonhos
Por onde passam desejos
Que já não bastam os montes
Para guardares teus pejos
E anseias algo incerto
Que desconheces mas amas
Que nunca viste por perto
Mas por quem em sonho chamas?

Pastor, pastor, ai a vida
Ai o tempo, ai o amor
Que te pregaram partidas
Que te embruxaram na dor
De quem nasceu homem feito
Sem ter direito ao calor
De abraços, de um abrigo
De uma carícia menor
Que não lhe fosse castigo
Se ilusão já não for…

E longe, longe, lá longe
Uma princesa dormindo
Uma princesa brincando
Sem cuidados nem castigos
Nem esforços, só cantando
Cantigas que lhe ensinaram
As amas, aias, criadas
Que a rodeiam, que a veneram
Que lhe são por empregadas
A quem não se dá direitos
A quem não se dá valor
Mas que são amores-perfeitos
No jardim de uma só flor.

Ora um dia (há sempre um dia
Em que a má sorte se agita
E remexendo destinos
Orvalhando solidões
Vai transformando caminhos
Em veredas de paixões
Por onde as sortes de cruzam
E onde fados se enlaçam
Torturando corações
Como presas que se caçam
E se esventram, se esmagam
Como bolas de sabão
Que num sopro se desfaçam…)

Ora o dia, nesse dia
Era um dia temperado
Nem chuva, vento ou calor
E estava o céu azulado
Voavam aves cantando
Estava a Primavera em flor
Estavam ovelhas pastando
Estava contente o pastor
Que na flauta ia tocando
Melodias a um amor
Que em seu peito está morando.

(Estava tudo bem, e entanto
Tudo ia mudando a cor
Tudo se ia transformando
Em cenário de terror.)

Estremeceram ovelhas
E as aves se agitaram
Do céu vieram centelhas
As nuvens se aproximaram
O céu cobriu-se de negro
Todo o monte era um degredo
Que até as flores murcharam
E as aves se calaram
E a flauta do pastorinho
Perdeu o som no caminho
Abriu-se um pranto no céu
E um choro de dor choveu…

E os ventos, ventanias
Porfiando desatinos
Sopravam nas serranias
Toda a raiva dos destinos
Que são marcados a ferro
Que são escritos na pedra
Que são temores e medo
Que são paixão muda e cega.

E então…
Acordaram tempestades
Em corações enjeitados
Que sozinhos já cresceram
Que isolados já viveram
Que sempre sós estiveram
Como reles condenados
A desterros, a degredos
Sem serem disso culpados.

E ouviu-se o grito de dor
De um coração desprezado
De um coração sofredor
Que não quer mais suportar
A solidão e a dor
De ser sempre um desgraçado
De ser pra sempre enjeitado
De ser um pária, um escravo
Um solitário pastor…

E lá longe, uma princesa
Entretida nos bordados
De toalhas para a mesa
De lençóis, de naperons
Desenhava corações
Em paninhos adornados
Com o sol do seu jardim
Com sorrisos de marfim
Com segredos bem guardados…


E a lua cresce na noite
E o luar se entretém
A esconder sonhos e fados
Pelas sombras de ninguém.

Ouvem-se passos nas trevas
Já se escondem nos beirais
Os silêncios de promessas
Que não se esquecem jamais
E a noite esconde segredos
De sentimentos, de medos
E de amores imortais.

E há olhos negros chamando
Através de um pensamento
Que assim voa, atravessando
As marés de mar e vento
Que são feitas de quebranto
Que são feitas de lamento
E se transformam num fado
Cantado sem fingimento
Pelo olhar de um enjeitado
Que ali está nesse momento.

Abrem-se portas na sombra
De uma espera atormentada
E há olhos negros, de pomba
Há muito tempo encerrada
Espreitando entre as grades
De uma gaiola dourada.

Olhos que são duas monjas
Duas brilhantes estrelas
Dois faróis no nevoeiro
Dois castiçais, duas velas
Dois bagos de azeitona
Dois sonhos de amazona
Duas meninas tão belas…

Olham-se amores, destinos
Olham-se sortes e fados
Um em trajes leves, finos
E outro em farrapos rasgados
Mas só se olham os olhos
Só se entrelaçam as mãos
E se estremecem os sonhos
E se encantam corações
Só se abraçam as saudades
E se acendem as paixões…

E estremecendo suspiros
Chega a manhã e o dia
Chegam sonhos perseguidos
Chega a ilusão e a magia
De enamorados encontros
De apaixonadas entregas
De um oculto romance
Em que a memória se nega
A sofrer as amarguras
Trazidas nessa maré
De fados e desventuras
De crenças, amor e fé.

Gemem amores no peito
Guardam com eles suspiros
De inusitados defeitos
Por tanta gente assumidos
Em que pobreza e riqueza
Não devem ter fantasias
De se juntarem à mesa
E partilharem alegrias.

Foram sentidos profundos
Os que ligaram destinos
De almas que se juntaram
Entre cantares divinos
Em passeios ao luar
De mãos dadas e unidas
De orações no verbo amar
Na junção de duas vidas
Entre promessas e beijos
Entre sonhos, entre fados
Que estremecem os desejos
E as noites dos dois amados.

Sonho, matéria disforme
Que disfarçando amarguras
Vai penetrando a fome
De quem anseia ternuras
E se entrega ao destino
Como a um amo cruel
Como a cruel assassino
Que se entranha na pele
De quem se faz peregrino
Seguindo um sonho só dele…

E há corpos que se entrelaçam
Há bocas que se amordaçam
Há desejos, há suspiros
Há sonhos adormecidos
Há desesperos contidos
Que, despertando, se enlaçam
Entre cetins, alvo leito
Em que se encostam os peitos
De dois amantes, dois fados
Que finalmente abraçados
Enternecidos se olham
Enamorados se abraçam…

E amanheceu…
Nunca o sol assim brilhara
Nem a manhã fora rosas
Que acordando se espreguiçam
Entre aromas de jasmim
Espalhando cheiros de amor
Espalhando a brisa em auroras
Esquecidas num alvor
De sossegados luares
Num perfumado jardim
Entre cantos e cantares
Em que o amor nunca tem fim.

E amanheceu…
Despertaram os temores
Os medos, as nostalgias
Que se entranhando na alma
Vão roubando as fantasias
De quem se deixou levar
Por amores e paixões
Sem temer nem recear
O despertar de razões
Que possam anunciar
Torturas, mortes, prisões.

Apenas uns olhos negros
Olhavam sem entender
O temor nuns olhos belos
Que olhavam sem nada ver
Da beleza e do encanto
De momentos já passados
Mas sofriam a tortura
De ter no peito a tristura
No coração guardar fados
Que conduzem à loucura
E amar, amar, amar
Amar apenas… ventura
Que se nega a enjeitados…

(E era enjeitado, e sabia
Que de o ser não deixaria…)

Afastaram-se os amantes
Entre beijos, entre olhares
Em que se davam amores
E condenavam distâncias…
E aumentavam os penhores
De penas que amor alcança
Quando dois fados se cruzam
Sem disso terem direito
Como se fossem traidores
E cruéis enganadores
Cada um do próprio peito.

Passava o dia e as horas
E vinha a noite por fim
Vinha o luar e a aurora
Vinham sombras ao jardim
Em abraços à loucura
De amar sonhos perdidos
Como em cantigas de outrora
Se cantavam destemidos
Príncipes, que combatiam
Contra dragões e suspiros
E amores despeitados
Em que princesas se riam
De segredos de enjeitados.

(E era enjeitado, e sabia
Que de o ser não deixaria…)

Temia amor, e temia
Até o riso daquela
A quem entregava a alma
A quem entregava a vida
Por quem perdia a cautela
Por quem feliz morreria
E se perdia em jardins
Entre aromas de jasmins
E leitos que eram dela.

Tudo era dela, só dela
Que ele nada tivera
Para dar a uma princesa
Que em berço de oiro nascera
E que tanto o abraçava
E ternamente beijava
E dizia ser sincera…

Ó ciúme, cruel amo
De corações enjeitados
Por que penetras a carne
Por que penetras o peito
Onde o amor é escravo
E não resiste à loucura
De crer em monstros e bestas
E rejeitar a ternura
De uns negros olhos, carentes,
De apaixonada candura?

Por que te entranhas no peito
Com gestos de falsidade
E iludindo aos amores
Vais enganando a verdade
E penetrando na pele
E preenchendo a alma
Com dúvidas e temores
E atiçando as dores
De quem só quer ser feliz
Amando um cândido olhar
E deixando-se abraçar
Perdidamente entregando
Toda a alma, todo o ser
Que nada é seu, nada quer
A não ser essa mulher
Nos seus beijos se perder
E nos seus braços morrer?…

Iam passando os dias
E o amor ia aumentando
E a paixão já cegando
Cruzada de outras esferas
Em que morrem primaveras
Por amores se imolando.

Vinham noites de ternura
Vinham dias de ansiedade
Vinha o medo e a lonjura
Receios da mocidade
E era enjeitado, e sabia
Que nada do que fazia
Era por sua vontade.

Paixão de mortes e fados
Amor de sinas e medos
Que envolveis os amantes
Em mistérios e segredos
Onde escondeis a virtude
O sonho e a castidade
Que negais à juventude
Que mentis com a verdade
Que ilude a quietude
E o sono da mocidade?

Mas passaram esses dias
De uma harmonia suave
E a serra se transformando
Numa cruel liberdade
Em que as aves vão cantando
As flores se perfumando
E os animais já pastando
E as folhas se transformando
Em tons de final de tarde
E tudo dessa essência
Se torna dor e fastio
E saudade e desafio
De ser barco, ser um rio
Ser mar, ser onda, navio
Para acalmar esta ausência
Que no peito se contrai
Causando mágoa e demência.

E arrisca-se uma tarde
A ver amor ansiado
Que a noite é sol que não arde
É como um lume apagado
E é agora uma fogueira
Num coração abrasado
Que queima a alma em lume
Que queima o peito em ciúme
E cega amor, abre um fado.

E amor vai, já tremendo
De antecipado ardor
De um esperado calor
Nuns braços que o esperam
Com saudade e ânsia e dor
Que a morte já se anuncia
Com seus clarins, seu clamor
E é preciso abraçá-la
Que o desespero é maior
Quando se perde a razão
E se procura a loucura
Nos aconchegos do amor.

Vinham pastores cantando
Uma canção que aprenderam
Cantada por moças tristes
Que num dia envelheceram
Mil anos, mil juventudes
Que passaram e tremeram
Ao ouvir a triste sina
Dos amantes que morreram.

Contam que foi tal e qual
Tal e qual todos o dizem
Que um dia um enjeitado
Se tornou enamorado
De uma bonita princesa
Por quem também foi amado.

E amavam-se, queriam-se
Eram um só, um só fado
Que em noites de ardente amor
Se encontravam, se perdiam
E a dor que um no outro via
Era um sonho enganador
Que assim aos dois atraía
No desespero e temor
De verem chegado o dia
E com a aurora, o alvor
Arauto da despedida
Ausência de amor e vida
Que o dia era um traidor.

E não suportando a ausência
Um do outro, na paixão
Que um e outro envolvia
Resolvem em certo dia
(ou certa noite, não sei)
Terminarem a agonia
E viverem na alegria
De serem princesa e rei.

E nessa hora fatal
A princesa se abraçou
Ao destino de um pastor
E para o bem e o mal
Em pastora se tornou.

E ele era rei da serra
Era o dono da paisagem
Imperador de uma terra
Onde a natureza encerra
Trejeitos de vassalagem.

Foram felizes os dois
Por esses dias e horas
Amavam-se e enterneciam
Cada um em cada olhar
E o amor que sentiam
Cada vez a aumentar
E já nem medo sentiam
De alguém os encontrar.

Mas princesas são princesas
Estão de algum modo presas
Ao destino de o ser
E aquela era cativa
Que um dia foi prometida
Pelo pai, ainda menina,
Noiva era, sem saber.

Viveram dias felizes
Na amplitude da serra
E era o amor mais lindo
Que num coração se encerra.

Mas a escuridão surgia
Surgiam trevas à espreita
Que em corações de amantes
Sempre uma pena se ajeita
Adormecendo no leito
De um atormentado peito
Que abraça sonhos dolentes
E beija medos gementes
Sibilando profecias
De amores e agonias
Que se aproximam, dementes…

Era a princesa mais linda
Era um pastor enjeitado
Era o amor e a magia
Era profecia e fado
Era o medo, era a lonjura
Era o sonho, era a ternura
Era tudo e nada era
Que nunca ninguém soubera
Dizer amor à loucura.

Vieram tristes soldados
Homens leais e honrados
Cuja honradez os perdia
E apartaram os amados
Rasgaram em mil bocados
O louco amor que os unia.

Levaram essa princesa
A um pai que a exigia
Que nunca na realeza
Se permitiu à pobreza
Ter sentimentos e dores
Por quem mais alto se via
Por quem mais alto morava
E mais alto se encerrava
Em torres de nostalgia.

Veio a princesa em escolta
E escondeu a revolta
Que no seu peito sentia
Pra não despertar no rei
Maus sentimentos ou lei
Que ao seu amado perdesse
Ou entregasse à prisão
Ou condenasse à expulsão
Ou ao degredo, ou à morte
Às galés, à escravidão….

Pobre pastor enjeitado
Pobre amor tão mal fadado
Que o aconchego e a sorte
Deixaram abandonado
Deixaram sem alegria
Deixaram sem compaixão
Deixaram-lhe a nostalgia
Mataram-lhe o coração.

Chora o pastor a paixão
Chora o seu peito ferido
Chora a dor dessa ilusão
Que o deixara adormecido
E iludindo a desgraça
Que ao nascer recebera
Tentara amar, ser amado
E tinha-se apaixonado
E tanto amor concebera
Que nunca houvera pensado
Que o seu amor nada era
Se comparado à riqueza
Se comparado ao esplendor
Que rodeia uma princesa
Que se impõe à beleza
Do mais puro e nobre amor…

Chora o pastor o seu fado
Chora a princesa a má sorte
Que a afasta do seu amado
E a leva para a morte
Pois viver ao lado de outro
A matará de desgosto
Ainda antes do sol-posto…

E morre ao chegar a noite
Ao sentir-se aproximado
O momento indesejado
De se entregar sem amor
E trair seu coração
Sem culpa ter da traição
Que faria ao seu amado.

Morre de amor, de paixão
Não é capaz da traição
Não é seu o coração
Que traz guardado no peito
E morre sem dar um ai
Cai nos braços de seu pai
Que com espanto e sem jeito
Sem entender nem pensar
Se deixa cair também
E vem acudir a mãe
O noivo e a comitiva
E toda a gente se agita
Todos gritam e acorrem
Todos se benzem e correm
A chamar quem de direito
O doutor, o padre, a lei
Que são amigos do rei
E saberão com certeza
Curar do mal a princesa…

Mas a princesa jaz morta
E o rei jamais se conforta
Sem entender esse amor
Sem entender essa morte
E a rainha também
No seu coração de mãe
Sente que a morte já chega
E toda se lhe entrega
E cai doente na cama
Sem entender nem querer
Sem perceber nem cuidar
Ou sequer o desejar
Do que matou a princesa
Só sabe que ela morreu
A filha que Deus lhe deu
E morta também quer estar…

E chora o pastor o fado
De ser sempre um enjeitado
Ignorando que a amada
Há muito fora enterrada
Há muito arrefece e jaz
Há muito deixara o mundo
Por ter sido incapaz
De trair seu coração
Trair um amor tão forte
Que a ligara a um pastor
E a entregara à paixão
Que a levaria à morte
Por amor, por esse amor…

E então o vento falou
E o enjeitado escutou
Palavras que o vento diz
Palavras que o vento traz
Palavras de amargura
Sussurradas ao ouvido
De quem não fora capaz
De confiar no amor
De acreditar na pureza
Palavras vindas de longe
De uma fria sepultura
Onde jaz uma princesa...

Vinham pastores cantando
Uma canção que aprenderam
Cantada por moças tristes
Que num dia envelheceram
Mil anos, mil juventudes
Que passaram e tremeram
Ao ouvir a triste sina
Dos amantes que morreram.

Contam que foi tal e qual
Tal e qual todos o dizem
Que um dia um enjeitado
Se tornou enamorado
De uma bonita princesa
Por quem também foi amado.

E ao saber que ela morrera
Ao saber que falecera
A princesa, o seu amor
Enlouquece nessa dor
E tenta matar o rei
O tirano, o ditador
Que lhe tirara a amada
Que ela, desesperada
Morrera por seu amor
Por esse humilde pastor
Que por ela mataria
Quem de si a arrebatara
Quem de si a apartara
Quem do seu lado a levou
Quem a traíra e matara.

E entrou no real Paço
Para matar com seu braço
O rei cruel, que dormia
Sem remorso ou nostalgia
Nem amostras da saudade
Que ao pastor já roía.

Matá-lo sem compaixão
Sem pundonor ou perdão
Apenas melancolia
Desespero, raiva e dor
Gritando por um amor
Que consigo o levaria.

E ergueu a sua mão
Para matá-lo, e então…
Matá-lo não conseguiu
Pois antes disso morreu
De comoção e tristeza
Ao recordar a princesa
Dona do seu coração
Que do alto lhe acenava
E para si o chamava
Com ternura e afeição
E com a mesma paixão
Que em tempos que já lá vão
Por amor se lhe entregava…

Cantam pastores na serra
Uma canção que aprenderam
Cantada de terra em terra
Canção que fala de amor
De amantes que se entregaram
Na paixão em que se amaram
E por esse amor morreram
Por essa paixão imensa
Por essa dor tão intensa
Que dos seus peitos brotara.

Contam que foi tal e qual
Tal e qual todos o dizem
Que um dia um enjeitado
Se tornou enamorado
De uma bonita princesa
Por quem também foi amado.

E o resto era mais um fado
Cantado na solidão
De um bosque, na escuridão
De uma espera angustiada
Por uma noite de amor
Numa eterna madrugada
Onde se incendeiam almas
E ardem corpos na chama
Com que se sente o amor
Astro-fogo, chama-ardor
Da eterna paixão e dor
Em almas que se abraçam
Em corações que se enlaçam
Entre ilusões e pudor
Entre a loucura e o engano
Entre a raiva e o amargor
Entre o desejo insano
De amar sem lei ou temor…

Cantam pastores na serra
Uma canção que aprenderam
Cantada de terra em terra…

FELIPA MONTEVERDE

(Esta xácara foi escrita para o fórum "Nosso Grupo" (http://nossogrupo.com.pt/forum/index.php) entre 16 de Novembro de 2009 e 2 de Fevereiro de 2010, onde foi publicada na secção "O meu Lusíadas")

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

As palavras que eu te disse

As palavras que eu te disse
um dia
um daqueles tristes dias
em que agimos
sem saber
nem entender
o que sentimos…

As palavras que te disse
nesse dia
nessa hora de loucura
de tortura
que eu vivia
sem saber
nem entender
que o fazia…

As palavras que te disse
nessa altura
nessa hora de loucura
que vivemos
sem saber nem entender
o que fizemos…

As palavras que te disse
nessa hora
de loucura e de tortura
ainda ignoro
o que disse
e porque disse
e tanto choro…

Aas palavras que te disse
sem saber
sem saber que te feria
foram mais
muito mais do que punhais
e com essas palavras desferia
o golpe
que agora neste dia
neste dia em que te vais
p’ra nunca mais
magoa
dilacera a tua alma e a minha…

Nas palavras que te disse
nesse dia
nesse dia e nessa hora de loucura
despejei toda a minha amargura
e escondi
escondi todo o amor que eu sentia…

Felipa Monteverde

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Distante presença

Não sei padecer de amor por ti
que a distância é um caminho que renego...
tu estás longe, estás tão longe daqui
tão perto de quem foste e a quem me entrego.

Distante te encontras, tão distante
que nem sei qual o caminho a percorrer
para te encontrar... ao menos um instante
um minuto que seja para em mim eu te rever...

Partiste, fugiste ao teu encontro
ao encontro de quem foste e esqueceras.
E eu aqui fiquei, minh’alma num confronto
sem saber se ama a ti ou quem tu eras…

Felipa Monteverde

domingo, 12 de agosto de 2012

A concha azul


Era uma concha azul
trazida pela maré
vinda dos mares do sul
pra debaixo do meu pé.

E eu pisei-a.
Magoei-me, pois então;
andar descalça na areia
também tem o seu senão...

Felipa Monteverde

terça-feira, 17 de julho de 2012

Fado da tarde

Um dia, trauteando "Estrela da Tarde", fado cantado por Carlos do Carmo com letra do poeta José Carlos Ary dos Santos, saiu-me isto:

Meu amor, meu amor
minha estrela da tarde
que o luar te não veja
nem o mundo se acabe.

Meu amor, meu amor
quem me dera a certeza
se tu és lua cheia
ou és candeia acesa
meu amor, meu amor
que nem chora nem reza.

Eu não sei, meu amor
se o que digo é tolice
se é mentira ou encanto
se é magia ou doidice
que se fez ou se disse
ou segredo ou quebranto
mas se chegas na tarde
que é tarde e é cedo
e é medo e é pranto
já não sei o que penso
o que digo e o que faço
só que te amo tanto.

Meu amor,
se isto é fado ou bruxedo
é por ti que o canto.

Felipa Monteverde

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Na boca do poeta

Procura as palavras na boca do poeta
lá as encontrarás límpidas e puras.
O poeta conhece todas as palavras que procuras
e quer dar-te o silêncio em que as escreve.
Aceita a sua oferta
como se fosse um ramo de flores:
rosas, margaridas, cravos, as que quiseres
porque és tu quem as colhe nas palavras do poeta.

Felipa Monteverde

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Razão de Ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

( Paulo Leminski )

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Fernando Pessoa



Fernando, mensagem do meu reino
pessoa singular
homem grande e não pequeno
ideais de além-céu e além-mar.

Poeta de misterioso encanto
lúcido e confuso no pensar...
Minha alma é a tua, navegante
de mil sonhos numa barca a naufragar...

Fernando, poeta dos mil nomes,
mil almas que tiveste, sem ter tido...
Homem-deus, de espíritos disformes
universo em que anseio ter vivido...

Felipa Monteverde

sábado, 9 de junho de 2012

Por vezes

Por vezes inventamos silêncios que nos
fogem das mãos... e cada palavra é um
sussurro inacabado na transparência dos
sonhos em que nos afundamos...

Felipa Monteverde

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Pensei-te

Pensei-te e não recordo
que a chuva apagou o que eu sentia
ao lavar os meus sonhos
nesta cama fria.

Fiz a cama com lençóis de mar
num colchão feito de tempo
e adormeci sentidos de luar
e acordei marés do pensamento...

Pensei-te e não te entendo.

Felipa Monteverde

domingo, 6 de maio de 2012

Perto de ti



Perto de ti haverá sempre
um olhar que tu não vês
um toque terno, um mimo
um afago, um carinho
que desconheces quem fez.

Sonhas gestos que procuras
e não sabes encontrar
gestos meigos, doces beijos
abraços de mil desejos
que não queres começar.

Perto de ti está a alma
que sonhas igual à tua
com sonhos iguais aos teus
com gestos iguais aos "eus"
que procuras pela rua.

Felipa Monteverde

domingo, 25 de março de 2012

Vencedora do 6º Pena de Ouro

Simone Butterfly foi a grande vencedora do 6º Pena de Ouro, com a poesia "Nos braços de um anjo".
Ela dedicou a todos os participantes esta bela poesia de Mário Quintana:

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
(Mário Quintana)


O meu muito obrigada e muitos parabéns à Simone.
E a Lindalva ofereceu-me este magnífico selo:

quarta-feira, 21 de março de 2012

Para celebrar o Dia da Poesia

A SILABA

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

Eugénio de Andrade

domingo, 18 de março de 2012

Resultados da 2ª fase do Pena de Ouro

Já saíram os resultados da 2ª fase do Pena de Ouro, não passei à fase final mas foi muito bom participar. Agradeço à Lindalva pelo convite e a todos que votaram em mim. Eis os resultados:


E esta era a minha poesia:

Perderam-se as lembranças

Não era uma porta qualquer, era a que
dava acesso ao espaço inabitado do meu peito mas
nunca a quiseste transpor, nunca achaste satisfeito
o desejo de domínio absoluto do teu reino.

Medo ou cobardia, talvez fosse algo
assim entre estes dois sentidos o que
mostravas nas palavras que escondias.
Medo de amar, cobardia em te entregares
e o tempo encarregou-se de apagar
todas as lembranças que eu pedia.

Perderam-se em fragmentos pelo
tempo fora essas lembranças que nunca esqueci
recordações de frases e sorrisos que jamais recebi.
Perderam-se, voaram pelo espaço em que te cri
pelo tempo desse tempo em que ingénua vivi
e nada tenho a recear, nada no meu peito
mostra o quanto precisei de ti.

Perderam-se as lembranças, onde as guardei?
A arca foi roída, carcomida pelas traças
e tudo que eu lembrava se fragmentou
no tempo, amargamente ausente em mim
o amor que te quis dar…

Felipa Monteverde

Presentinho da Lindalva
Os meus parabéns a todos os participantes, boa sorte para os que passaram à final:

Maze

Marilene

Roseli

A estas poetisas juntam-se os três que venceram a 1ª fase, a grande Final começará no dia 20 deste mês.
E viva a poesia!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Participo no 6º pena de Ouro...



... e venho apelar ao voto, naturalmente!
Clique no link e deixe um comentário com o seu voto e o link do seu blog. 
Mesmo que tenha mais do que um blog só pode votar uma vez por dia (dias 15, 16 e 17).
Se votar na minha poesia agradeço, se não votar não faz mal mas visite esse cantinho poético da Lindalva:

Obrigada

quinta-feira, 8 de março de 2012

Travisto-me

Travisto-me de alegria – eu
que sou a tristeza e a amargura.
A minha alma é pura melancolia
meu espírito ansiedade
o meu corpo vã matéria
a mente a luta contra a insanidade.
E o meu coração a eterna espera
pelo fim desta loucura,
desta insana forma de amar e não amar
de viver e não viver
de lutar, de desistir
de recomeçar e resistir
ao tormento que me obriga
a ser o que não sou nem quero ser.

Felipa Monteverde

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Prémio Pirata de Ouro

Prémio de participação na Caça ao Tesouro

Prémio Pirata de Ouro por superar as provas

Recebi com imenso gosto estes prémios da Ilha da Lindalva, nunca pensei passar todas as provas!


Vá festejar com a Lindalva no grande Baile azul e branco

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Selo recebido!


Ofereci este selinho à Lu e recebi-o de volta!

O Liebster Blog é um prêmio dado aos blogueiros u-and-coming, com menos de 200 seguidores.
Liebster, em alemão, significa favorito,querido, amado.
Desta forma,receber este selo significa que o seu blog é muito querido pelo blogueiro que lhe presenteou.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Era o mar


Havia o mar, havia muito mar
nos sonhos que mantive
guardados na arca das lembranças
dos carinhos e dos medos que já tive.

Mas esse mar era azul
mais azul que o verdadeiro
e toda a fome se unia
em redor de uma fatia
de mar salgado e veleiro.

Luziam velas ao vento
e os sonhos que levavam
nessas rotas de ninguém
guardei-os  no pensamento
onde as traças não chegavam
para mos levar também.

Era o mar, apenas
e um desejo incrível de alcançar
o alto de uma nuvem de poemas
que eu soubesse criar.

Felipa Monteverde

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Onde?


Ventos e fados roubados
lonjuras do teu olhar,
tantos sonhos cimentados
nas nuvens de algum lugar...

Onde estão os pensamentos
que um dia te dediquei,
que um dia atirei aos ventos
que um dia por ti penei?

Onde está quem quero amar?
Onde está quem em mim mora?
Onde os beijos, o lugar
em que o amor por mim chora?

Felipa Monteverde

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Este livro que não li

Este livro que não li
deu-me auroras de segredos
onde andavas, bem te vi
nas escarpas e rochedos
da costa de um mar gelado
que era corpo, eram dedos
que levavam maresias
pelas letras dos meus dias
que não li naquele livro
onde mentiste poemas
de amor em ti cativo.

Felipa Monteverde