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Poeta por inspiração e imposição da alma... Uma pessoa simples, que vive a vida como se fosse a letra de uma canção, o enredo de um filme, a preparação para uma vida superior, à espera da eternidade e do encontro com o Criador.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Pensei-te

Pensei-te e não recordo
que a chuva apagou o que eu sentia
ao lavar os meus sonhos
nesta cama fria.

Fiz a cama com lençóis de mar
num colchão feito de vento
e adormeci sentidos de luar
e acordei marés do pensamento.

Pensei-te e não te entendo.

Felipa Monteverde

domingo, 21 de junho de 2015

Absorta

Quanto mais conheço as pessoas
mais procuro a solidão;
só eu e os meus livros
os meus santos
e os momentos de meditação.

Só eu e Deus
e os filhos que me deu,
que trago sempre no meu coração.

Quanto mais conheço as pessoas
mais procuro estar sozinha;
ter momentos de total isolamento
de solidão absorta
que a solidão é a minha madrinha.

Felipa Monteverde

terça-feira, 2 de junho de 2015

Premonições


Gastei todos os silêncios. Deixei que se
obscurecessem todos os pensamentos.
Gaivota em terra, o meu coração que se
arrependeu de tentar ser mar.

No piar do mocho o augúrio enche a noite.
Borboletas inundando-me o estômago.
Borboletas noturnas, negras.

Como as trevas que envolvem a noite, assim
um barco me navega pelos pensamentos.
Não há noite para quem se esquece de sonhar,
apenas um barco atravessando um rio.

Um barco negro. Um rio de mágoas e desespero.
A noite é a cama de todas as conversas, de todos
os limites. A noite é assim como um verbo,
esquecido na palavra que o saberia conjugar.

Eu trazia comigo todas as palavras, qual cesto
de flores colhidas pelos campos. Trazia comigo
as flores e os gestos, palavras em flor que se
tornariam jardim. Trazia comigo as manhãs de nevoeiro
onde escondi lamentos entre lençóis de cetim.

Trazia comigo as palavras e o gesto. Mas
a cesta perdeu a asa, romperam-se os vimes,
o entrançado das formas a cair no chão.
Foram-se as palavras, morreram todos os gestos.
Dissipou-se o poema no intenso nevoeiro.

E um dia tudo será esquecido. Procurarei
as palavras certas e elas, simplesmente, terão
levantado voo há muito tempo, para bem longe de mim.
Um dia, sei-o bem, também tu me esquecerás.

Palavra nunca proferida, o nome das coisas.
O nome que dávamos ao tempo e ao abraço.
O nome que nos unia os corações na distância
das noites que nos separavam. O nome que a música
criou em nós. O silencioso som da palavra que éramos nós.

Um dia tudo deixará simplesmente de existir.
O nome não terá quem o recorde, a palavra
acabará num qualquer contentor de lixo.
Páginas de um livro já rasgado, as palavras
misturando-se no esquecimento de todas as coisas.

Um dia deixaremos também de existir.
Como uma história que acaba.
Um romance que termina.
Um dia.


Felipa Monteverde

(ANTOLOGIA "PREMONIÇÕES, EDITORA LUA DE MARFIM, 2015)

sábado, 25 de outubro de 2014

Apagão


Talvez todo o tempo do mundo não chegasse
para aquela lagartinha subir o muro. Era
um muro alto. Era uma lagarta pequenina.

Ela iniciou a subida e não se assustou. Nem
com a altura do muro nem com o calor do meio-dia.
Ia subindo, subindo, ligeira na sua lentidão.
Subia, subia. O sol também subia e brilhava.

Lesto aquele pássaro também subiu, procurando
comida. Viu a lagartinha e desceu, acabou-lhe
com a subida. E ela, que nada a assustava,
também não teve medo ao pássaro. Sentiu
simplesmente que se apagou o sol.

Felipa Monteverde

VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS
Folheto Edições & Design

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Hoje é o dia de Santo António.
É também o dia do nascimento de Fernando Pessoa e da morte de Eugénio de Andrade. Dois poetas que amo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

À minha avó

Um dia as saudades chegarão, invadir-me-ão
a alma e o coração. A tua lembrança penetrar-me-á
até aos ossos, a dor de não te ter será chaga aberta
para sempre no meu peito.

Mas até lá, deixa-me recordar-te com a alegria
que sentia quando te via, a ternura com que
te pegava na mão. Deixa-me recordar a tua voz,
o teu jeito de ser meigo e bonito. A tua sinceridade
e boa disposição. Deixa-me recordar quem eras,
 porque tu eras a pessoa mais linda do mundo.

Eras a minha vida, o meu amor.
Deixa-me recordar-te assim.

Quando as saudades chegarem, quando
a dor me invadir ao ponto de não conseguir
sentir mais nada a não ser a espada cravada
no coração, então chorarei.

Agora não. Agora só quero
pensar em ti e sorrir, agradecer porque te tive.

Felipa Monteverde

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Borboletas

Gosto de pensar em borboletas. Às vezes,
quando pego no caderno e não sei o que escrever,
vêm-me à ideia frases como esta: a borboleta poisava
nas flores, devagarinho, querendo conversar…

Nunca soube completar as frases. E não gosto
de borboletas, por causa das larvas que comem
as couves e as plantas. Mas são bonitas, sim, são
agradáveis à vista, embora seja uma beleza efémera.
Que não deixa de ser beleza…

Depois de pensar em borboletas fico sem saber
o que escrever. E se insisto só me saem parvoíces.
Mas são as minhas parvoíces, fazem parte de mim…

Hoje é um desses dias. Peguei na caneta e assim fiquei,
de caneta na mão, a olhar para estas páginas e a
pensar em borboletas. Talvez sinta necessidade de voar…


Felipa Monteverde