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Poeta por inspiração e imposição da alma... Uma pessoa simples, que vive a vida como se fosse a letra de uma canção, o enredo de um filme, a preparação para uma vida superior, à espera da eternidade e do encontro com o Criador.

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O meio ou o modo

Nada do que eu aqui disser
será permanente ou trará
felicidade aos meus dias.

A vida é um sonho ausente
como o café que se bebe
e se esquece de seguida.

Se queres saber o meio
o método ou o modo
de viver e existir
corrige esse teu brio
e deixa que a vida te conduza
aonde não pensaste ir.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Pensei-te

Pensei-te e não recordo
que a chuva apagou o que eu sentia
ao lavar os meus sonhos
nesta cama fria.

Fiz a cama com lençóis de mar
num colchão feito de vento
e adormeci sentidos de luar
e acordei marés do pensamento.

Pensei-te e não te entendo.

Felipa Monteverde

domingo, 21 de junho de 2015

Absorta

Quanto mais conheço as pessoas
mais procuro a solidão;
só eu e os meus livros
os meus santos
e os momentos de meditação.

Só eu e Deus
e os filhos que me deu,
que trago sempre no meu coração.

Quanto mais conheço as pessoas
mais procuro estar sozinha;
ter momentos de total isolamento
de solidão absorta
que a solidão é a minha madrinha.

Felipa Monteverde

terça-feira, 2 de junho de 2015

Premonições


Gastei todos os silêncios. Deixei que se
obscurecessem todos os pensamentos.
Gaivota em terra, o meu coração que se
arrependeu de tentar ser mar.

No piar do mocho o augúrio enche a noite.
Borboletas inundando-me o estômago.
Borboletas noturnas, negras.

Como as trevas que envolvem a noite, assim
um barco me navega pelos pensamentos.
Não há noite para quem se esquece de sonhar,
apenas um barco atravessando um rio.

Um barco negro. Um rio de mágoas e desespero.
A noite é a cama de todas as conversas, de todos
os limites. A noite é assim como um verbo,
esquecido na palavra que o saberia conjugar.

Eu trazia comigo todas as palavras, qual cesto
de flores colhidas pelos campos. Trazia comigo
as flores e os gestos, palavras em flor que se
tornariam jardim. Trazia comigo as manhãs de nevoeiro
onde escondi lamentos entre lençóis de cetim.

Trazia comigo as palavras e o gesto. Mas
a cesta perdeu a asa, romperam-se os vimes,
o entrançado das formas a cair no chão.
Foram-se as palavras, morreram todos os gestos.
Dissipou-se o poema no intenso nevoeiro.

E um dia tudo será esquecido. Procurarei
as palavras certas e elas, simplesmente, terão
levantado voo há muito tempo, para bem longe de mim.
Um dia, sei-o bem, também tu me esquecerás.

Palavra nunca proferida, o nome das coisas.
O nome que dávamos ao tempo e ao abraço.
O nome que nos unia os corações na distância
das noites que nos separavam. O nome que a música
criou em nós. O silencioso som da palavra que éramos nós.

Um dia tudo deixará simplesmente de existir.
O nome não terá quem o recorde, a palavra
acabará num qualquer contentor de lixo.
Páginas de um livro já rasgado, as palavras
misturando-se no esquecimento de todas as coisas.

Um dia deixaremos também de existir.
Como uma história que acaba.
Um romance que termina.
Um dia.


Felipa Monteverde

(ANTOLOGIA "PREMONIÇÕES, EDITORA LUA DE MARFIM, 2015)

sábado, 25 de outubro de 2014

Apagão


Talvez todo o tempo do mundo não chegasse
para aquela lagartinha subir o muro. Era
um muro alto. Era uma lagarta pequenina.

Ela iniciou a subida e não se assustou. Nem
com a altura do muro nem com o calor do meio-dia.
Ia subindo, subindo, ligeira na sua lentidão.
Subia, subia. O sol também subia e brilhava.

Lesto aquele pássaro também subiu, procurando
comida. Viu a lagartinha e desceu, acabou-lhe
com a subida. E ela, que nada a assustava,
também não teve medo ao pássaro. Sentiu
simplesmente que se apagou o sol.

Felipa Monteverde

VI ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS
Folheto Edições & Design

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Hoje é o dia de Santo António.
É também o dia do nascimento de Fernando Pessoa e da morte de Eugénio de Andrade. Dois poetas que amo.

terça-feira, 13 de maio de 2014

À minha avó

Um dia as saudades chegarão, invadir-me-ão
a alma e o coração. A tua lembrança penetrar-me-á
até aos ossos, a dor de não te ter será chaga aberta
para sempre no meu peito.

Mas até lá, deixa-me recordar-te com a alegria
que sentia quando te via, a ternura com que
te pegava na mão. Deixa-me recordar a tua voz,
o teu jeito de ser meigo e bonito. A tua sinceridade
e boa disposição. Deixa-me recordar quem eras,
 porque tu eras a pessoa mais linda do mundo.

Eras a minha vida, o meu amor.
Deixa-me recordar-te assim.

Quando as saudades chegarem, quando
a dor me invadir ao ponto de não conseguir
sentir mais nada a não ser a espada cravada
no coração, então chorarei.

Agora não. Agora só quero
pensar em ti e sorrir, agradecer porque te tive.

Felipa Monteverde

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Borboletas

Gosto de pensar em borboletas. Às vezes,
quando pego no caderno e não sei o que escrever,
vêm-me à ideia frases como esta: a borboleta poisava
nas flores, devagarinho, querendo conversar…

Nunca soube completar as frases. E não gosto
de borboletas, por causa das larvas que comem
as couves e as plantas. Mas são bonitas, sim, são
agradáveis à vista, embora seja uma beleza efémera.
Que não deixa de ser beleza…

Depois de pensar em borboletas fico sem saber
o que escrever. E se insisto só me saem parvoíces.
Mas são as minhas parvoíces, fazem parte de mim…

Hoje é um desses dias. Peguei na caneta e assim fiquei,
de caneta na mão, a olhar para estas páginas e a
pensar em borboletas. Talvez sinta necessidade de voar…


Felipa Monteverde




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Indiferentemente

De facto
torna-se complicado
aceitar a existência de um ente
que vive dentro de nós
indiferentemente.

Indiferente a tudo
que possamos almejar
neste sentido que ascendemos
a esperar.

E
torna-se complicado
torna-se muito complicado
ser azul entre as estrelas
ser pedra no mar salgado.

Não espero
(nunca espero)
saber descomplicar a vida
só me aborrece esta espera
de uma promessa tardia.

E espero.
Indiferente ao teu ser
que vive dentro de mim
sem eu o conhecer.

Felipa Monteverde

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cansei

Hoje cansei a espera.
Cansei-a de esperar por mim.
Cheguei mais cedo. Iludi o olhar que
me lançava com o segredo que escondia.

Cansei-a e saí, obscura a sina que
me envolvia o abraço. Cansei-a e
descansei amores. E fiquei quieta e tranquila,
aguardando o sol e a luz que me traria.

Felipa Monteverde

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Lapas

Há pessoas que são lapas.
Apegam-se-nos, agarram-se.
Sugam o que podem e o que não queremos dar.

Lapas.
Mas nós não somos rochas. Não
aguentamos durante muito tempo
sermos sugados, tolhidos nos movimentos.
E sacudimos essas lapas, afastamo-nos
desse mar. Ou tentamos...

Felipa Monteverde

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ausência

Chamei-te meu amor e era silêncio, na paisagem
dos teus olhos percorri lugares que fantasiei.
Não sei os caminhos que escolhes, sei que o medo
de perder-te faz de mim quem não me sei.

Não conheço a maré que te trouxe à minha praia, o mar
onde navegam os teus sonhos não tem rotas conhecidas.
Meu amor de nenhum tempo, onde a areia onde dormias
onde o barco onde quiseste embarcar?

Já não sei o tempo, o feitio de um amor mais que perfeito
que era sonho e era vida. Chamei-te meu amor e era o medo
silenciando as dores de perder-te, calando as palavras
já mortas e ressequidas além tempo.

Outrora éramos nós, fomos tão nós... tão juntos
tão intensamente unidos... Hoje somos apenas
o silêncio, o cansaço de uma noite, a nostalgia
feita das saudades mais serenas.

Ainda te chamo amor... baixinho, tão baixinho
que nem o meu coração ouve. Perdi-me
no silêncio, na madrugada fria em que adormeço
sentindo-te comigo e tão ausente.

Felipa Monteverde

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O livro da Dulce


Recebi hoje, pelo correio, o livro da minha amiga Dulce Gomes. Dona do blogue DEGRAUS DE SILÊNCIO, a Dulce sempre nos habituou a textos e poemas que nos maravilham a alma.
Lembro-me de, na Quaresma de 2012, durante a Caminhada que fizemos com alguns amigos, cada um no respetivo blogue, a Dulce ter postado num dos seus dias um poema que me agradou muito, tanto que o incluí na Via-Sacra rezada na minha paróquia, quando foi a minha vez de a organizar. O poema da Dulce foi lido como oração final,  por toda a assembleia, apresentado num trabalho de Powerpoint produzido para o efeito.
Não me espanta que a Dulce tenha publicado os seus trabalhos, dada a qualidade dos seus escritos. E espero que este seja o primeiro de muitos, cá aguardamos para os ler.
Parabéns, Dullce.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Pele

Pele.
Orgão do sentido, do tato,
do mimo e do afago. Do abraço,
dos afetos, do desejo secreto ou
demonstrado. Que sente a ternura
do beijo da criança, dá a mão à
esperança, acarinha o velho.

Órgão às vezes maltratado,
ignorado, exposto aos ventos e
marés de toda a vida. Atraiçoado
pelo dono, deixado ao abandono
nas tempestades e vendavais,
sem nenhum barco ou
cais que o abrigue.

Órgão do carinho consentido e
com sentido, sensação, flor,
toque, sensibilidade e dor.
Contacto. O calor, o frio.
Proteção. Sedução. Arrepio.

Felipa Monteverde

(Poema incluído numa brochura da empresa DERMOLUSA para divulgação da sua linha de produtos para a pele, D'AQUA)

domingo, 3 de novembro de 2013

Vaso quebrado

Penetra-me o coração a espada da amargura
o seu gume rasga a vida que não tenho.
Eu era fogo, que lentamente consumiu o lenho em que ardia.
A cinza recolhida em vaso velho e já cansado era eu dentro do tempo.

Ignorante das dores, houve um tempo.
Depois passou, e o futuro doeu.
Era uma espada. E vieram as dores.
O fogo, já extinto, continuou a arder no tempo
mas já lá não estava eu.
O que eu era não resistiu à espada
que o meu peito exibia e alimentava no seu sangue.

Doía. Sim, doía.
Como dói e mata toda a amargura
que o coração transporta e acalenta.

Fogo. Eu era fogo. Em cinza me tornei.
Um velho vaso já quebrado me guardou a vida
quem o atirou da escada?

Felipa Monteverde

(in IV Antologia de Poetas Lusófonos)


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Sonho perdido


Perdi um sonho. Perdi-o e não sei onde.
Não sei onde o perdi, onde o deixei.
Talvez tivesse ficado naquele dia de outono
enquanto eu namorava uma fantasia.

Talvez se tenha deixado ficar, ali sozinho
enquanto eu me divertia. Não sei.
Sei que o perdi. Sei que o perdi.

Felipa Monteverde

(in IV Antologia de Poetas Lusófonos)

quinta-feira, 21 de março de 2013

Orquídea


Hoje é o Dia da Poesia, em Portugal (no Brasil foi no dia 14). 
Para celebrar a data publico esta poesia, já com alguns aninhos:



Na varanda, eu tinha um vaso
com uma orquídea
que me foi oferecida
mas não fiz caso
e não reguei o vaso.
A orquídea foi à vida.
Que pena! Mas a culpa disto
é de quem me ofereceu um vaso
com uma orquídea
que eu não pedi e não queria.
E como não a queria
não fiz caso
e não reguei o vaso.
Pu-lo na varanda
da mesma banda
para onde brilhava o sol
e foi o que se viu:
o sol brilhou
a terra do vaso secou
e como não foi regada
a flor morreu.
Que pena! Mas a culpa disto
é de quem me ofereceu um vaso
com uma orquídea
que eu não pedi e não queria.
No entanto,
quando novamente florir
vou tentar estar atenta
e dar-lhe de beber
para a flor não morrer.

O vaso continua na varanda.

Felipa Monteverde

quinta-feira, 14 de março de 2013

V ANTOLOGIA DE POETAS LUSÓFONOS



Humildemente confesso que faço parte dos 147 poetas, de 15 países, que integram esta antologia. É para mim uma honra que a minha estreia na publicação em papel se faça juntamente com pessoas que amam a poesia e os livros. 
Tenho pena de não poder estar presente na apresentação mas convido todos os meus amigos que moram por esses lados que vão e tirem fotos, para eu ver :)
A entrada é livre.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Princesa encantada




Vivo presa ao passado
princesa encantada por um mago cruel.
Não sei o que faço nem aonde vou
e o mar dos meus olhos reflete as estrelas dos teus.

Vivo presa ao passado
princesa encantada e cativa de amor
viajo na mente de um mago que sei e conheço tão bem.

Cativa deixei que eu fosse por ti
num encanto que um dia fizeste de mim
princesa encantada que olha ao redor
e as estrelas parecem ser tudo e ser nada.

E o mar dos meus olhos reflete o espaço sem fim
onde escondo as estrelas que um dia espreitei e perdi.

Princesa nasci, por ti encantada
cativa de amor num amor que não tens
viajando na mente de um passado breve
que encanta e cativa e solta e prende.

E o mar dos meus olhos reflete o espectro cruel
de um mago sem dó nem amor por ninguém
que me encanta e me prende em estrelas reais
que me tomam nos braços e me levam de volta
a um tempo em que era princesa encantada e cativa de amor.

Felipa Monteverde

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Solitariamente

Passo os dias a correr,
passagem de ninguém por mim.
Solitariamente permaneço num jardim
onde o tempo vai passando e nada resta.

Nada resta. Absolutamente nada.
Nem o tempo me diz aonde ir
em que esferas gozaria a paz e o sonho.
Passo os dias a correr e a cancela não transponho.

Permaneço aqui, a mente em alvoroço.
Sinto-me no cimo de um poço
de águas frias que tentam agarrar-me.

A maré de pensamentos que agita o
mundo em que me refugio
abala a minha mente de tal forma
que a vivo fora de contexto ou norma.

Nada sai do seu sossego.
Nada entra neste espaço onde sou só eu
nas estradas por onde caminho e passo.

É a maré? É o mundo? É o tempo?
Em que consiste este atulhar de pensamento
em que mergulho e de onde jamais saio,
turvas águas de um poço onde caio?

Assim passam os dias. Passa a vida.
Passa o tempo e nada passa junto a mim.
Eu por cá vou ficando, num banco de jardim
solitariamente cansada e aborrecida.

Felipa Monteverde