Passo os dias a correr,
passagem de ninguém por mim.
Solitariamente permaneço num jardim
onde o tempo vai passando e nada resta.
Nada resta. Absolutamente nada.
Nem o tempo me diz aonde ir
em que esferas gozaria a paz e o sonho.
Passo os dias a correr e a cancela não transponho.
Permaneço aqui, a mente em alvoroço.
Sinto-me no cimo de um poço
de águas frias que tentam agarrar-me.
A maré de pensamentos que agita o
mundo em que me refugio
abala a minha mente de tal forma
que a vivo fora de contexto ou norma.
Nada sai do seu sossego.
Nada entra neste espaço onde sou só eu
nas estradas por onde caminho e passo.
É a maré? É o mundo? É o tempo?
Em que consiste este atulhar de pensamento
em que mergulho e de onde jamais saio,
turvas águas de um poço onde caio?
Assim passam os dias. Passa a vida.
Passa o tempo e nada passa junto a mim.
Eu por cá vou ficando, num banco de jardim
solitariamente cansada e aborrecida.
Felipa Monteverde
Acerca de mim
- Felipa Monteverde
- Poeta por inspiração e imposição da alma... Uma pessoa simples, que vive a vida como se fosse a letra de uma canção, o enredo de um filme, a preparação para uma vida superior, à espera da eternidade e do encontro com o Criador.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Na noite
Perdi-me na noite e o silêncio fugiu.
Encontrei a alma que perdera há séculos
e o espaço que a sustinha. Pairava
lá no ar, solitária e arredia, acima
do futuro que um dia me há roubado.
Como um sonho já passado, relembrado à lareira,
emergia a cantiga e o refrão perdia-se na noite.
E na noite andava eu perdida.
Felipa Monteverde
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
O canto adormecido
Já não há a cantiga, o tempo mentiu passados
e o canto adormeceu. Nem colo há
apenas o frio da cadeira vazia e o lume apagado.
Pendem as chouriças ao fumeiro, os presuntos
um grande ramo de loureiro. A trempe, o pote
agora não são mais do que objetos para o “ferro-velho”
a carrinha passa uma vez em cada mês.
A morte de uma casa começa pela cozinha
quando a cozinha morre todo o resto fica moribundo.
Virão os gatos e comerão os ratos, alimentados das
chouriças que ficaram esquecidas.
Os móveis apodrecerão. As paredes cairão.
O canto ficará adormecido para sempre
numa cadeira ao borralho.
Felipa Monteverde
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
mas sem ser ele
que ele foi muito infeliz e
eu não quero a infelicidade de ninguém
(já me basta a que sinto às vezes
quando estou mais virada para os sentimentos egoístas).
Mas o que quero dizer com isto
é que eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
na genialidade que ele tinha
na perfeição que ele punha
em tudo o que fazia.
Dizem que era um bêbado
um alcoólico...
mas se assim foi
abençoadas as bebedeiras que teve
que o fizeram escrever tanto
e tão geniosamente…
Eu gostaria de ser como Fernando Pessoa
para escrever sobre qualquer assunto
a qualquer hora
com a genialidade do mestre
do formador de caracteres dentro dele
que nem sabia qual deles existia
qual deles era ele
(se é que ele foi algum dos imensos que quis ser)...
Felipa Monteverde
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Esperanças...
Deus sabe melhor do que eu
Quem eu sou
Por isso a sorte que me deu
É aquela em que melhor estou.
Ele alinha
As minhas acções
De uma forma que não é minha
Mas tem lá suas razões.
(Fernando Pessoa)
Nunca faço planos, vou contornando ou aceitando
o que o destino me traz.
Como diz o ditado: "Guardado está o bocado
para quem o há-de comer".
E "O que tiver de ser à mão vem ter".
Será conformismo, será cobardia, será
experiência de vida, será cansaço, será o que
lhe quiserem chamar, mas é assim que levo a vida
assim a vida me ensinou.
Para um novo ano, como para os anos anteriores
apenas tenho esperanças... quanto
a concretizações, dali a um ano falaremos.
Tenho uma filosofia de vida: mais vale rir e cantar enquanto
podemos, que o tempo de chorar nunca se esquece de vir.
E chorar não traz ganho nenhum, mas rir e cantar
traz-nos boa disposição.
Com este poema de Fernando Pessoa me identifico bastante
e me consolo quando a vida me trai, quando parece que o
mundo e Deus estão contra mim.
Mas, ao fim e ao cabo, verifico que tudo tem um lado bom
e um lado mau. Procuro retirar sempre das coisas más todo
o bem que possam trazer, por mínimo que seja.
No primeiro dia de cada ano
enquanto a euforia dos festejos dessa noite se desvanece
medito a lembrança de conquistas e sucessos, de falhanços e
derrotas, de mágoas e alegrias, vividas durante o ano que passou.
E chego à conclusão de que a vida vale mesmo a pena ser vivida
pois nunca há uma fome que não dê em fartura
um choro que não acabe em riso
uma tristeza que mate de vez a alegria.
E é essa esperança cheia de (in)certezas que faz com que
o sol nasça de novo todos os dias e as andorinhas continuem
a ser prenúncio de primavera, ainda que mais tarde cheguem
a noite e o inverno...
Felipa Monteverde
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Leituras
Nada está escrito.
Tudo está escrito.
Escolhe e vive
escreve ou reescreve
a opção é tua
seres sol ou lua
calor ou fria neve.
Escreve ou reescreve a tua história
mas não deites a culpa ao destino
se perdeste a inspiração.
Porque nada está escrito
ou tudo está escrito
depende se sabes ler ou não.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Mais nada além disto
Eu
não sei quem sou
só sei
que nasci e existo
e não sei
mais nada além disto
do trabalho que faço
e da roupa que visto…
Felipa Monteverde
Subscrever:
Mensagens (Atom)