o seu gume rasga a vida que não tenho.
Eu era fogo, que lentamente consumiu o lenho em que ardia.
A cinza recolhida em vaso velho e já cansado era eu dentro do tempo.
Ignorante das dores, houve um tempo.
Depois passou, e o futuro doeu.
Era uma espada. E vieram as dores.
O fogo, já extinto, continuou a arder no tempo
mas já lá não estava eu.
O que eu era não resistiu à espada
que o meu peito exibia e alimentava no seu sangue.
Doía. Sim, doía.
Como dói e mata toda a amargura
que o coração transporta e acalenta.
Fogo. Eu era fogo. Em cinza me tornei.
Um velho vaso já quebrado me guardou a vida
quem o atirou da escada?
Felipa Monteverde
(in IV Antologia de Poetas Lusófonos)


